Depoimentos

Escritores, colegas de trabalho, leitores, amigos e parentes, relembram passagens com o escritor ou sua obra

"Era início de 1992. Recém entrando na faculdade de Jornalismo na Univali, em Itajaí. Desde aquela época, sempre fui ligada na arte de escrever e nas coisas catarinenses. Portanto, já conhecia um pouco sobre a importância de Salim Miguel para a arte catarinense com o Grupo Sul, que uma nobre e competente professora de português já tinha nos apresentado seus livros, que só há pouco tempo doei para a biblioteca. Surgiu na aula de redação jornalística a atividade de  técnica de 'entrevista' e o desafio de entrevistarmos alguém importante no cenário catarinense. Logo pensei em Salim. Investiguei e consegui o telefone. Marcamos uma entrevista para março ou abril. Lá fui eu entrevistar Salim. Gentilmente me recebeu com Eglê e dividi a entrevista com outros dois jovens estudantes de Floripa, que não sei mais o nome. Fiz a entrevista, tirei fotos e na conversa depois contei que rabiscava poemas. Foi a deixa para a Eglê dizer: 'Manda pra gente olhar e avaliar. Vamos adorar'. Aquilo me encantou. Por que ela, tão importante da área da crítica literária, teria tempo para os poemas de uma desconhecida jovem de 18 anos. Mas, metida que sou, mandei mesmo meus textos. E, em julho, depois de achar que não teria mais resposta, recebo a carta de Salim Miguel com a foto do encontro e sua avaliação de meus poemas. Logo depois, uma carta de Eglê que até hoje guardo como recordação. Foram palavras doces, com avaliação sincera. Um sonho realizado pra mim.

Ficamos de nos ver mais. A vida não nos permitiu. Guardo até hoje, 32 anos depois, as cartas. Revisito às vezes as palavras ditas e sigo escrevendo. Me ajudaram muito a seguir escrevendo, a acreditar que podia. Apesar de pouco eu ter publicado e de achar que ainda não estou pronta para um livro de poesia, sigo com as falas de Eglê me achando uma 'poetisa'. Receber esta semana o documentário EGLÊ é me fazer relembrar do encontro e lamentar por não ter convivido mais. Tudo bem. Agora, vou conhecer melhor essa mulher que até hoje as escolas catarinenses teimam em não estudar muito. Não tem a ver com a questão política. Mas, também tem. Uma pena. Salve, Eglê! Parabéns a vocês que tiveram a coragem e a alegria de deixar registrada essa história."

Danielle Garcia

Jornalista e escritora de Balneário Piçarras

"'Salim: O escritor que sabia somar'

“Recordo-o a subir tranquilamente os degraus que o levavam a um de seus momentos mais gloriosos: o palco da 9ª. Jornada Literária Nacional de Passo Fundo, RS, armado no campus da UPF, sob as lonas do Grande Circo da Cultura. Segui-lhe os passos, estonteado com os aplausos de 5 mil pessoas que chegaram ali, naquela noite de 28 de agosto de 2001, cheias de curiosidade em torno do vencedor do disputadíssimo Prêmio Zaffari & Bourbon, e foram surpreendidas com o resultado, pois deu empate entre dois romances: 'Nur na Escuridão' - todos sabemos de quem -, e 'Meu Querido Canibal', deste que ora lhes escreve. E que iria se apoiar na robusta figura que o precedeu na chamada ao palco, para ser encarado, das primeiras filas, por alguns finalistas daquela premiação, vai ver.... decepcionados!

Ele me recebeu no palco de braços abertos. E dele descemos abraçados, seguindo para uma sala cheia de repórteres. A primeira pergunta foi atirada na minha cara: 'O que achou da divisão do prêmio?' Resposta: 'Não houve divisão. Foi uma soma para a literatura brasileira'.

Gratidão eterna, querido Salim, por ter, com sua tão tranquila presença, me inspirado uma resposta no ponto – e que virou manchete. E dali fomos irmãmente guindados a outros palcos, Brasil afora”.

Antonio Torres

Escritor, membro da Academia Brasileira de Letras

“Quando comecei a trabalhar, em 1954, na ‘Gazeta do Povo’, de Curitiba, aos 16 anos, logo ouvi falar em Salim Miguel, que agitava os meios literários com sua atuação junto ao Grupo Sul em Florianópolis. Nos anos 1970, tive o privilégio de conviver com ele nas revistas da Editora Bloch, na Rua do Russell, no Rio de Janeiro. Talentoso em toda e qualquer modalidade da escrita, Salim se destacou, além do jornalismo, ao publicar vários romances e ao co-editar – com sua mulher Eglê Malheiros, Fausto Cunha, Cícero e Laura Sandroni – a revista de contos ‘Ficção’.

Lamento até hoje não ter trabalhado diretamente com ele. Em compensação, quando editava a revista ‘Manchete’, contei por muito tempo com a valiosa colaboração de seu filho, Antônio Carlos Miguel, digno portador do DNA do pai, e ainda meu companheiro de jornalismo musical até hoje.

Como pessoa, Salim Miguel me deixou de pronto a impressão de uma rocha em meio a um mar tempestuoso, de um farol na escuridão.”

Roberto Muggiati

Jornalista e escritor (e jazzólogo)

"Quando Youssef desembarca no cais do porto do Rio de Janeiro, no Brasil, em maio de 1927, vindo do Líbano, era noite. Ele, Tamina e três filhos, sendo o mais velho de nome Salim Miguel, com três anos de idade. Noite e, por isso, a primeira palavra que a família conheceu da língua portuguesa foi 'luz', ilustrada por uma chama de palito de fósforo de um motorista de táxi que tentava ajudá-los a encontrar o endereço do lugar onde dormiriam pela primeira vez no Brasil. Em 'NUR Na Escuridão', romance ficcional, Salim Miguel conta essa saga, do interior do Líbano ao de Santa Catarina. Não à-toa o primeiro capítulo desse romance é Luz e o último, Sementes. Entre a luz e as sementes estão as histórias dessa família, do seu filho mais velho, Salim, que vai se transformar ao longo da vida em um grande escritor, jornalista, editor, crítico literário e colabora também com argumentos e roteiros cinematográficos, como no filme 'A Cartomante' (conto de Machado de Assis), de Marcos Farias, em 1974. É um orgulho para nós libaneses (meus avós por parte de pai também chegaram ao Brasil mais ou menos nessa época) termos Salim para contar essas 1001 histórias do nosso passado com tamanha criatividade que aguçam nossos olhos e ouvidos se transformando em histórias para adiar o fim do mundo. Rio, 29 de janeiro 2024."

João Bosco

Cantor e compositor (que, coincidentemente, então sem conhecer Salim Miguel, fez a trilha sonora de "A Cartomante")

“No início dos anos 1980, trabalhava na UFSC quando Salim Miguel chegou para, entre outras coisas, expandir a editora universitária. Eu sabia da amizade com meu pai, só não imaginava que entraria em uma fase tão significativa de minha vida. Nesses anos de convivência com o escritor líbano-biguaçuense, conheci um verdadeiro cultivador de amigos. Sempre procurado no trabalho por escritores e intelectuais, quando eu estava, não se cansava de frisar: ‘Esse é filho do saudoso Aníbal e o conheci na barriga da mãe.’ Em 1984, assim botou na dedicatória de ‘A Voz Submersa’: ‘Ao Zé Henrique, amigo por ele e pelo grande Aníbal’. Hoje, essa herança de amizade, ideias e ideais prossegue com os filhos de Eglê e Salim, com os quais tenho afinidades, boas lembranças e projetos.”

Zeca Nunes Pires

Cineasta

"Ao assumir, em 1992, a superintendência da Fundação Franklin Cascaes, Salim usou sua biografia e suas boas relações para alavancar a instituição. Até então, era um braço da Secretaria de Turismo, entulhada num puxadinho misto da antiga fábrica de tecidos Hoepck. Em seu período, até 1996, a sede da Fundação, transferida para uma espaçosa sala no edifício Reflex, ao lado da Biblioteca Pública de Santa Catrina, promoveu diversos prêmios literários e muitos eventos.

Informalmente, mas com o carisma habitual e a expertise de tantos décadas, criou o primeiro 'departamento' de marketing cultural de Santa Catarina. Algo que pude testemunhar, nomeado na coordenadoria da Fundação responsável pela captação de patrocínios, em uma época que nem mesmo tínhamos leis de renúncia fiscal. Concebemos e realizamos três edições do Festival Isnard Azevedo de Teatro, três edições da Maratona Fotográfica, três edições do Encontro Nacional de Folclore, duas Mostras de Dança e uma de Artes Plásticas. Salim apoiou a edição de diversos livros de autores catarinenses e discos do Rancho de Amor à Ilha, do poeta Zininho, da cantora Neide Maria Rosa e do grupo de reggae e funk Stonkas Y Congas.

Também realizou diversas oficinas didáticas de artes em comunidades de periferia e pescadores do aglomerado urbano da cidade; viabilizou a primeira participação de Florianópolis no projeto 'A Ilha em Buenos Aires', levando telas de artistas plásticos, artesanatos e livros para o Palais de Glace, na capital Argentina; e, junto com o Coordenador Geral, o sociólogo João Carlos Silveira de Souza, trouxe para única apresentação em Florianópolis a ópera 'O Guarani', reunindo uma multidão jamais vista, mostrando que o povo aprecia, sim, a música clássica".

Murilo Silva

Manezinho da ilha, filósofo e advogado

“Sábado ensolarado e almoço da família na casa de tio Salim, em Cachoeira de Bom Jesus. Chego atrasado e, questionado, explico que passei a noite e a madrugada tentando socorrer um veleiro que encalhou na praia após a tempestade da noite anterior. Antes de chegar à orla, parecia navegar sozinho, como um barco fantasma.

Salim ouviu atentamente o relato e, num estalo, falou que aquela história era a peça do quebra-cabeças que faltava para finalizar o novo livro. Dias depois, voltei para alguns esclarecimentos náuticos que ele inseriu no texto.

Assim era Salim nas conversas do dia a dia, pescava as situações e nos brindava com suas histórias, estórias.

Curiosos para saber o destino do veleiro fantasma? ‘Mare Nostrum’ é o livro.”

Ricardo “Cado” Michel

Sobrinho (e velejador)

“A noite se arrastava na recepção de um hospital em Florianópolis. Naquela tarde veranil, Salim sofrera uma rasteira, em forma de AVC, que, acrescida da queda brutal, o deixava em um jogo tenso entre este plano e o outro, que dá lá sabe-se aonde.

O entra e sai de médicos e enfermeiros, as repentinas chamadas à presença de um familiar, os sôfregos boletins e a angustiante espera por uma transferência para outra unidade davam ares ao drama ainda mais carregados.

A cunhada Avani, a mais católica das católicas, levanta em meio ao silêncio reinante entre nós e se encaminha a uma pequena imagem de Nossa Senhora, anunciando orações. Eglê, que assim como o tio, há anos abandonara quaisquer crenças religiosas, a segura docemente pelas mãos e diz: ‘Vani, reze!’

Salim ainda nos brindaria por mais alguns anos, agora numa versão ainda mais livresca, com sua presença de espírito impagável (livre de censuras), acrescida de saborosas tiradas nonsense. O que, valham-me os santos, não me privou de continuar a receber dele a alcunha mais valiosa: ‘Meu amigo Zé!”

JAM

Sobrinho (e cantor e compositor)

“Graças à originalidade de sua de ficção, o catarinense Salim Miguel assegurou lugar no painel da literatura brasileira de segunda metade do século XX. Agora centenário, ele traçou um corpo de delito da alma e do imaginário de imigrantes árabes (como ele, nascido no Líbano) que chegaram ao Brasil nas primeiras décadas do século passado. Gente que, como conhecemos em seu livro ‘Nur’, superou a escuridão da língua, dos costumes e da pobreza econômica e passou a integrar o imenso caleidoscópio da nossa brasilidade em todos os âmbitos, da culinária à medicina. Gente plenamente representada em sua nobreza simbólica na produção literária de Salim.”

Salgado Maranhão

Poeta

“Durante boa parte de minha adolescência passei meses cercado por pilhas de livros, tanto na casa da Trindade quanto na de Cachoeira de Bom Jesus. Não eram meus e, sim, os que Salim recebia das editoras para fazer suas colunas de crítica literária. E assim convivíamos em minhas longas temporadas como hóspede, em férias e feriados. Ele sentado em algum lugar com um livro; eu, em outro, devorando algum que houvesse aleatoriamente retirado de uma das pilhas. Ambos em um silêncio caloroso, cúmplice, de pessoas de gerações distintas, que partilhavam a mesma natureza, de entrar numa boa história e navegar para onde ela nos levasse.”

Sérgio Malheiros Mahlmann

Sobrinho

“Intelectual de primeira linhagem, romancista de mão cheia, pensador original e constantemente antenado aos problemas sociais do Brasil. Pessoa fraterna e proativa. Tive a honra de estar com ele em dezenas e dezenas de vezes, sempre carinhoso, afetuoso e pondo todo mundo a caminhar pra frente! Saudades.”

Godofredo de Oliveira Neto

Escritor, membro da Academia Brasileira de Letras

"Quando penso no Salim, penso na Eglê. E lembro de nossas conversas. No apartamento da Carvoeira, na varanda em Cachoeira, nos sábados à tarde no Kobrasol. No carro, retornando de alguma palestra feita por eles. Ao telefone. Conversas sobre vida, arte e literatura. 'Estamos lendo o lançamento da escritora tal', 'Impressionante o poema que abre esta coletânea!', 'Assistimos novamente ao ‘O velho e o mar’, leva o DVD pra ver'. Empolgados como crianças que trocam figurinhas, navegantes de um mar sem fronteiras, leitores atentos de uma biblioteca infindável, Eglê-e-Salim. Assim mesmo, unidos por hífen, ela, com sua precisão de arqueira ninja; ele, com uma generosidade que se propagava em volutas barrocas.

Lembro do Salim dizendo, repetidas vezes: 'Eu sou o mais conhecido, mas a Eglê é a mais preparada'. Da mão dele buscando a dela, sentados lado a lado na sala da casa de praia. Quando chega janeiro, lembro do bolo de abacaxi feito pela Isabel, esposa do Flávio, a cada aniversário. Das bromélias que eu levava para a Eglê, plantadas no jardim pelo Paulo Sérgio e pela Iara. Da casa de praia com filhos, filha, netos, netas e a prole da gatinha Carcaça. E chego quase a ouvir o Salim, faceiro, sussurrando ao meu ouvido 'Puuuxa, que festança!'.”

Luciana Rassier

Professora e tradutora

“Há mais de duas décadas quando leio, releio e revisito as obras de Salim Miguel, sinto a potência do seu trabalho, do seu fazer literário, me tocarem e me afetarem de modo profundo, reforçando o nosso olhar sobre a importância da cultura, da leitura, da literatura, do livro, sobre o nosso compromisso com a humanidade e com a construção de um mundo melhor, mais justo, em que o amor e a dignidade humana prevaleçam. Há luz na escuridão! Salim Miguel é eternidade!”

Cristina Ayoub Riche

Profa. Dra. da UFRJ e membra da Academia Líbano-Brasileira (e admiradora e amiga de Salim Miguel)

“Lembro-me sempre de ‘Nur na escuridão’, para o qual Salim Miguel se baseou no livro de memórias que seu pai deixou escrito em árabe. Um livro dentro de outro livro, a respeito das lutas pessoais de seu pai: 1. Sua lesão na perna após uma queda grave; 2. Seus esforços para conquistar o coração de Tamina, minha prima; 3. Dos esforços para aprender a ler, no Líbano; 4. De trabalhar duro para ganhar a vida; 5. De viajar para o Brasil, onde, novamente, trabalha duro para criar uma família bem educada.”

Dr. Maurice Atiyeh

Médico gastroenterologista, Northern Virginia (EUA)

“Estou muito feliz ao saber da iniciativa de jogar luz na esplendorosa obra de um membro de nossa família – a saber, o primo Salim Miguel, do Brasil. Em meus 90 anos, ainda me lembro do prazer que foi conhecer a tradução para o árabe de seu reconhecido livro ‘Nur na escuridão’. Na época, em carta a outro primo brasileiro, Sayde, irmão de Salim, contei de minha admiração. Com amor e os melhores votos.”

Dr. Naim Atiyeh

Professor e psicólogo educacional, Beirute, Líbano

“Tive o prazer de conhecer Salim Miguel. Nosso primeiro contato foi através de ‘Nur na Escuridão’, romance lançado em 1999, ano em que perdi meu pai. Para acalmar meu coração, sempre ia à livraria, uma em especial no final do Leblon, a Letras e Expressões, que hoje não existe mais. Procurava um livro do escritor albanês Ismail Kadare quando me deparei com ‘Nur’. Óbvio que o título me chamou a atenção, comecei a ler ali mesmo e vi a história do meu pai sendo contada. Não preciso dizer que acabei o livro em dois dias e senti necessidade de escrever algo sobre. Mandei uma resenha para a revista ‘Letras’ da Universidade Federal do Paraná.

Mas isso não era o bastante, precisava falar com o autor que parecia ter ouvido a história do meu pai. Naquele tempo a internet era um território pouco explorado – escrevi um e-mail para a editora, que prontamente me deu o endereço para correspondência. Mandei para ele a resenha que tinha sido publicada, e falei o que senti quando li o livro: a história do seu pai, José Miguel, era a do meu próprio pai, em praticamente tudo. Uma das diferenças era que meu pai tinha 17 anos e não era casado, mas o resto era igual, assim como a alteração do nome conforme ia se aculturando, mas sem abandonar de vez sua cultura de origem

A partir daí, eu e Salim começamos a trocar algumas correspondências. E é impossível falar de Salim sem citar a Eglê! Ganhei dois mentores literários, ambos sempre generosos, que me estimulavam a escrever meus pequenos contos.

Só vim a conhecer Salim pessoalmente por volta de 2004, quando veio ao Rio lançar um novo livro, ‘Mare Nostrum’. Fui ao lançamento. Depois, em 2009, quando recebeu o prêmio Machado de Assis da Academia Brasileira de Letras, fui ao evento levar meu abraço! Era, certamente, um dia feliz para ele. Já sem visão, a sua Eglê fez a leitura de seu discurso de agradecimento. Quando Salim Miguel nos deixou, em 2016, senti muito, mas ganhei a amizade de seu filho Antônio Carlos Miguel e recentemente conheci a Sônia.

Hoje, a melhor forma de retribuir o carinho do Salim e da Eglê  é poder  celebrar o centenário desse filho da Diáspora, adaptando o romance ‘Nur’ para o teatro e organizando a Imersão Literária Centenário Salim Miguel, que ocorrerá em maio, no Sesc Nova Friburgo, pelo programa Sesc Pulsar.”

Muna Omran

Professora e escritora

"100 anos de Salim Miguel, meu pai. A falta que sinto dele é enorme e cotidiana, alimentada por lembranças de diferentes momentos que compartilhamos. Lembranças de pequena até adulta, já com filhos (Felipe e Thais) e netas (Clarice e Sofia). Caio, meu neto mais novo, ainda não tinha nascido. Lembranças nutridas por sua extensa produção literária e jornalística e contínuo ativismo cultural. Uma delas. Ainda criança, a partir do momento em que me dei conta que meu pai era um escritor, passei a pedir que ele escrevesse algo dedicado a mim. Ele ria e resistia, e eu insistia. Finamente, em 1986, ele vem e me entrega 'Ele', com a seguinte dedicatória: 'Para Sônia, que desde bem pequena me pede uma H(h)istória'. Aos 31 anos meu desejo de criança foi realizado, meu pai me dedicou um conto. E não foi coincidência este tratar da passagem de Luís Carlos Prestes por Florianópolis."

Sônia Malheiros Miguel

(“Ele” foi publicado no livro “Areias do Tempo”, 1988)

"Produzir narrativas situadas, contar histórias, certamente, por si só, não nos salvará dos diferentes cataclismas que nos assombram. No entanto, essa atividade fundamentalmente humana pode ser considerada como uma importante ferramenta de resistência, seja em sua capacidade de perfurar nossos imaginários tão limitados, seja como prática de um trabalho de memória para que não repitamos os erros do passado – ou, ao menos, possamos melhor nos preparar contra suas repetições.

Dois autores, em contextos muito diferentes, enfatizaram essa importância. O primeiro, um judeu alemão escrevendo no meio da ascensão nazista. Walter Benjamin refletiu sobre a forma como os soldados, ao retornarem do fronte para a suas casas no fim da primeira guerra mundial, estavam mudos. O terror da guerra havia de tal forma os traumatizado que qualquer forma de transmissão de suas experiências havia se tornado impossível. O segundo, um indígena brasileiro, escrevendo em meio ao cataclisma ecológico atual. Ailton Krenak diz que nos tornamos uma humanidade zumbi especialista em criar ausências, a começar pela incapacidade de entender o próprio sentido da experiência – eis a mesma palavra de novo – da vida. Seria preciso então renovar nossa capacidade de contar histórias como uma forma de adiar, o tanto quanto possível, o fim do mundo.

Em um país como o Brasil, afetado por uma crise aguda de memória, e por uma história em vai-e-vem de ondas violentas, narrar é uma tarefa da mais alta importância. Em nossa longa-curta história, a violência, uma constante, sempre foi acompanhada de estupidez. Precisamos continuar contando histórias, em primeiro lugar, para resistir à estupidez e ao declínio de nossos possíveis imaginários. Mas também para mantermos viva a memória.

É o que Salim e Eglê se esforçaram em fazer ao longo de toda uma vida. Ao lembrar, por exemplo, do início da ditadura militar brasileira, contam como militares e ativistas de extrema-direita invadiram a livraria Anita Garibaldi em Florianópolis – que havia pertencido a Salim – para queimá-la e fazer uma fogueira em praça pública com os livros ditos 'subversivos'. Dentre os livros escolhidos, um sobre o cubismo havia sido eleito como exemplo perfeito e prova da aliança extremamente perigosa entre a livraria e a Cuba de Fidel Castro... Seria cômico se não fosse trágico. Mas ignorância e violência extremas são frequentemente cúmplices – e prova disso são os bolsonarismos, trumpismos e mileirismos em voga aqui e ali.

Outro livro, 'Primeiro de Abril', é um forte relato-documentário de seus dias de prisão nos primeiros momentos da ditadura e onde fora informado sobre o trágico fim da livraria. Ou a própria memória e a narração são de certo modo os personagens principais de 'Confissões prematuras', uma de suas melhores ficções. Neste livro, o protagonista perdeu sua memória e portanto o acesso ao seu passado. Mas na (im)possível reconstituição desse passado, surge um jogo absurdo de invenção no qual o próprio leitor é de certa forma interpelado a ativamente tomar parte – 'deixo a tarefa ao meu possível leitor' (p. 61), escreve ele.

Não espanta portanto que Salim dizia que seu livro favorito era 'As Mil e uma Noites'. Contar, contar, contar; narrar, narrar, narrar. Para transmitir, para adiar, para reconectar, para lembrar, para não repetir, para experienciar.

Marlon Miguel

Neto, acrobata e filósofo (atualmente coordena o projeto "Madness, Media, Milieus" na Universidade Bauhaus, em Weimar, Alemanha)

“'Meu primeiro tio e meu primeiro mar'

Quando o conheci, não tinha a mínima noção do que fazia e da dimensão de sua persona. Então não falo do escritor, jornalista, cidadão do mundo comprometido com a igualdade. Nem do pai, até então, do João José, do Antônio Carlos, da Sônia e do Paulo Sérgio (Luis Felipe chegou depois). Menos ainda do companheiro de toda vida de Eglê, mãe dos seus filhos.

O ano foi 1964. O mês, julho. O dia? Não tenho certeza. Mas foi por volta do dia 20, quando aniversariava a já minha avó Rita, mãe de Eglê, e teve – em algum momento – um ajuntamento de gente, brincamos, comi o primeiro quibe assado na vida e cantamos. Para o menino que só faria 7 anos em agosto, as datas não eram importantes. Mas a primeirice das coisas.

A primeira viagem para longe, muito longe, muito mais longe que a cadeia onde homens fardados numa madrugada ruim das que se seguiram ao primeiro de abril. A primeira viagem! Eu ia com meu pai! E eu não desgrudava da janela para olhar tudo, que voava. E eu enjoei.

A primeira ponte com cara de ponte. E aquela água que não era o rio. E a cidade, que então só tinha aquela ponte e não tinha destruído imbecilmente seu patrimônio histórico. Não era a maior cidade do mundo, que era a cidade de onde eu vinha.

Até aquele momento eu só sabia que em algum lugar do mundo eu tinha avós, tios, primos, dos dois ramos. Mas em carne e osso só conheci e já reconhecia, além do pai Odílio, da mãe Mari, dos manos Odílio, Julio César e Jorge Miguel, que acabara de nascer dias antes do golpe, minha avó Rita, que visitava a casa com quintal, árvore, rua, amigos brincando na rua e aulas na escola primária.

Minha avó construiu a casa ao lado da casa de Salim e Eglê e aqueles primos todos. Eram casas novas, modernas, sem luxo, com conforto, e tinham um piso que não era de tábuas, nem as paredes, e para mim eram muito melhores do que a casa quase proletária e alugada em que vivia.

Perto daquele homenzarrão, todo mundo parecia miúdo, as crianças mais ainda. Criança também não comia na mesa dos adultos, nem ficava ouvindo as conversas. Eles conversavam muito. Conversavam como meu pai conversava com outros homens e escreviam em máquinas de escrever. Salim tinha uma máquina de escrever.

(Depois, muito depois, decifrei o que faziam: discutiam política, eram comunistas!)

A máquina de escrever era, para o menino e até aquele momento, simplesmente a coisa mais impressionante do mundo. Criança não podia chegar perto e quando insistia muito, deixavam datilografar tocando algumas poucas teclas e tá bom, chega, não é brinquedo. Só perdeu a primazia quando descobri que a kombi era a coisa mais impressionante do mundo (pensando bem, até aquele ponto, empatando com a ponte). Salim tinha uma kombi!

E colocou todo mundo – Rita, minha primeira tia Eglê, os meninos, meus primeiros primos e minha a primeira prima, meu pai Odílio e eu – naquele carro muito maior que os fuscas, os gordinis, os dkvs do mundo, a minha primeira kombi – e saímos da cidade e não atravessamos a ponte! Fomos por uma estradinha de terra, sacolejamos, paramos para dar passagem a quem voltava e fomos indo, indo, indo até que chegamos a uma casa de madeira, parecida como a minha! Cadê a praia?

A turma toda se arranchou, a criançada colocou roupa de banho (eu inaugurei minha primeira sunga de praia). E corremos todos prum montinho de areia, que escondia a coisa que eu nunca havia visto. E que, claro, virou a coisa mais impressionante do mundo na mesma hora!

Este foi o exato lugar e o exato momento que eu vi pela primeira vez o mar, as ondas, o vento, pisei na areia de uma praia, na minha primeira praia de mar, com tantas ondas, tanto vento e tanta areia, a areia mais limpa que não mais há igual.

E Salim Miguel, que desde alguns dias virara meu primeiro tio, acabara de me levar para ver pela primeira vez na vida o mar, o meu primeiro mar.

Quanta primeirice!

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Em 1964, morava em Novo Hamburgo, meu pai ficou dois meses preso em Porto Alegre, minha avó e meus tios e primos viviam em Florianópolis. Em 1978, Salim Miguel veio a São Luís para onde eu migrara. Visitou a mim e a todo o grupo do Laborarte, instituição hoje cinquentenária do fazer cultural no Maranhão.

Foi uma visita informal, mas deu a maior força para que fizéssemos depois o Curto Circuito, jornaleco do movimento de teatro popular. Eis mais um traço marcante: era uma grande figura humana, sim, mas de uma simplicidade no trato com os jovens artistas que com cinema, música, teatro, dança, literatura e jornalismo, resistiam à ditadura.”

João Otávio Malheiros

Sobrinho, historiador em construção, ambientalista, comunista sem partido.

© Salim Miguel: 100 Anos