Nascido no Líbano, em 30 de janeiro de 1924, Salim Miguel chega ao Brasil aos 3 anos de idade. No início da década de 1930, a família de imigrantes – os pais Tamina e Yussef/José, duas irmãs menores e um tio materno – acaba se radicando em São Pedro de Alcântara, distrito do município de Biguaçu, nos arredores de Florianópolis. Em Santa Catarina, a família cresce: além das irmãs que o haviam acompanhado na viagem através do Atlântico (Fádua e Hend), Salim ganha quatro irmãos (Jorge, Sayde, Fauzi e Samir).
O escritor, roteirista, jornalista, editor e gestor cultural, que completaria 100 anos em janeiro de 2024 sempre fez questão de valorizar sua condição de imigrante, se autodefinindo como um “líbano-biguaçuense”. E tanto Biguaçu como Florianópolis – além de várias outras localidades catarinenses – acabaram eternizadas em boa parte de sua singular obra de ficção, que reúne 23 livros, entre romances, contos e novelas.



O vilarejo de São Pedro não contava com escola “brasileira”. Assim, antes de estudar português Salim recebe aulas particulares de alemão e é alfabetizado em árabe, em sua própria casa. Sua escrita surge de uma profunda paixão pela leitura. Ainda em Biguaçu, no início da adolescência, descobre a literatura, trocando a ajuda no pequeno comércio do pai pelo trabalho de atendente da única livraria da cidade, cujo dono era João Mendes, um poeta cego. Pelo combinado, também tinha a tarefa de ler para o patrão.
Nos anos 1940, quando a família se muda para a capital e cresce o negócio de Seu Miguel (como era chamado Yussef/José), Salim já tinha dito ao pai que queria se tornar um escritor. “Vai ser difícil, mas, respeito”, foi a resposta.
Após brigar com um professor e abandonar o curso Colegial (o que hoje equivale ao Ensino Médio), Salim opta por prestar o exame de Madureza, que permitia considerar concluída esta etapa de aprendizagem. Depois disso, não pensa em fazer faculdade, preferindo trabalhar no censo do IBGE. É a partir dessa experiência que escreve seu primeiro livro, “Velhice e outros contos” (1951).
A partir da metade dos anos 1940, junto a outros jovens – incluindo sua companheira de toda a vida, a também escritora, tradutora, advogada e professora de História Eglê Malheiros –, Salim torna-se um dos líderes do Círculo de Arte Moderna (CAM), que viria a sacudir a então rala vida cultural da capital catarinense. Entre outros participantes estão jovens intelectuais de Santa Catarina, como Anibal Nunes Pires, Ody Fraga, Fúlvio Luiz Vieira, Antonio Paladino, João Paulo de Souza, Hiedy de Assis Corrêa, Tércio da Gama, Martinho de Haro, Silveira de Souza, Armando Carreirão, Ernesto Meyer Filho, Jair Francisco Hamms, Archibaldo Cabral Neves, Adolfo Boos Jr. e Walmor Cardoso da Silva.
São realizadas, entre outras atividades, exposições de arte contemporânea (que levariam à criação, em 1949, do Museu de Arte Moderna de Florianópolis), montagens de peças teatrais, o desenvolvimento do roteiro e a coprodução do primeiro filme longa-metragem de Santa Catarina (“O preço da ilusão”, 1958) e a edição revista “Sul”, que circulou entre 1948 e 1957.
Muito antes de os termos ganharem seus atuais significados, o Grupo Sul, como ficou conhecido, funciona como um verdadeiro “coletivo” de intelectuais, atuando em “rede”, com colaboradores e correspondentes espalhados por diversas cidades do Brasil. Também são mobilizadas parcerias internacionais, com contribuições regulares de autores sediados em Lisboa, Montevideo, Buenos Aires, Luanda e Nova York, entre outras cidades.
Nesse período, Salim Miguel também participa frequentemente de congressos de escritores, conhecendo nomes consagrados como Graciliano Ramos, Jorge Amado, Marques Rebelo e Carlos Drummond de Andrade, além de muitos autores das novas gerações. Continua a ser um ávido leitor e chega a tornar-se sócio de uma livraria – mas por um breve tempo, já que mais comprava livros do que vendia. Mesmo assim, a Anita Garibaldi, situada na Praça XV de Novembro (centro de Florianópolis), continuou sendo conhecida como “a livraria do Salim”. Até abril de 1964, quando foi depredada e incendiada por apoiadores do golpe que instaurou a ditadura no país por duas décadas.
Presos pelo regime militar, sob acusação de “subversão”, Salim e Eglê se mudam para o Rio de Janeiro. Entre outras atividades do período carioca, junto a Laura Sandroni, Cícero Sandroni e Fausto Cunha, criam e editam a revista de contos “Ficção” (1976-79), que marca época divulgando literatura da melhor qualidade e lançando novos talentos.
Também retornam ao cinema, como roteiristas de dois longa-metragem do diretor Marcos Farias, “A cartomante” (1974) e “Fogo morto” (1976) – ambos baseados em clássicos da literatura brasileira (de autoria de Machado de Assis e José Lins do Rego, respectivamente).
Em boa parte de sua vida profissional, Salim Miguel precisou conciliar as atividades no campo cultural com a prática do jornalismo. Mas os desafios gerados por essa situação acabam se revertendo em ganhos significativos para sua produção literária. Em vários momentos, faz questão de reconhecer publicamente as contribuições que a longa carreira nos meios de imprensa trouxe para o desenvolvimento de seus contos e romances.
Em 1951, ano em que lança seu primeiro livro, Salim já era redator do “Diário da Manhã”, de Florianópolis. Também na capital catarinense, vem a trabalhar na revista “Bossa Nova” e no jornal “Opinião Pública”. Já no início da década de 1960, ocupa cargo na assessoria de imprensa de Celso Ramos, então governador do estado, e assume a direção do escritório catarinense da Agência Nacional, a agência de notícias do governo brasileiro.
Quando se muda para o Rio de Janeiro, em 1965, mantém sua função na Agência Nacional e depois atua em diversas publicações da Bloch Editores, como as revistas “Manchete”, “Fatos & Fotos” e “Tendência”. De volta a Florianópolis, em 1979, além de seguir na Agência Nacional por vários anos, trabalha no “Jornal da Semana” e na assessoria de comunicação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Ao longo de toda a vida, a relação de Salim com o jornalismo também é marcada pela elaboração de resenhas sobre literatura brasileira e mundial, que publica em veículos como “O Estado” (SC), “Diário Catarinense” (SC), “Correio da Manhã” (RJ), “Correio do Povo” (RS), “Tribuna da Imprensa” (RJ) e “Jornal do Brasil” (RJ).
O retorno a Florianópolis também inaugura uma nova fase na vida profissional de Salim Miguel, que passa a atuar na gestão cultural, como diretor executivo da Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (1983-1991). No período, mobiliza recursos para a construção da sede da entidade e amplia significativamente o volume de publicações, valorizando tanto a produção técnico-científica como a de literatura catarinense.
Salim promove também a articulação com iniciativas culturais de expressão nacional, viabilizando a realização em Florianópolis, em agosto de 1985, da 3ª Bienal Nestlé de Literatura Brasileira – que inclui o seminário temático “A Poesia Brasileira Hoje”, com participação de convidados como Mário Quintana, Ferreira Gullar, Paulo Leminski e Ricardo Ramos.
Além disso, participa ativamente da construção de canais de colaboração entre as editoras de instituições acadêmicas de todo o país, em um processo que terminaria contribuindo para a criação do Programa Interuniversitário para Distribuição de Livros (PIDL) e da Associação Brasileira das Editoras Universitárias (ABEU).
Salim Miguel ocupa o cargo de superintendente da Fundação Cultural Franklin Cascaes entre 1993 e 1996, durante o mandato do prefeito Sérgio Grando. Ao dar início a um núcleo de captação de patrocínios, consegue ampliar consideravelmente o leque de atividades da instituição.
É criado o Festival Isnard Azevedo de Teatro, que realiza três edições reunindo companhias catarinenses e também de outros estados e países. No período, acontecem ainda três edições do Encontro Nacional de Folclore e da Maratona Fotográfica, assim como duas edições da Mostra de Dança e uma da Mostra de Artes Plásticas de Florianópolis.
Em 1996, ocorre a apresentação da primeira ópera completa encenada em território catarinense: “O Guarani”, de Carlos Gomes, integra as comemorações do aniversário de Florianópolis, atraindo cerca de 30 mil pessoas ao largo da Catedral Metropolitana.
Durante a gestão de Salim, a fundação apoia a edição de diversos livros de autores catarinenses, além de gravações de artistas da capital. Ao mesmo tempo, investe na democratização do acesso à arte e à cultura, por meio da realização de oficinas didáticas de música, pintura, artes plásticas, teatro e dança em comunidades da periferia da cidade e em comunidades de pescadores.
O menino que despertou para os livros como leitor de um poeta cego foi perdendo a visão na última década e meia de vida. Felizmente, também teve quem lesse para ele e digitasse seus últimos textos – no caso, um neto, Jorge Luiz, e um estudante da UFSC contratado pela família. Ao morrer, em abril de 2016, aos 92 anos, Salim deixou 33 títulos publicados, com livros de crônicas, ensaios e depoimentos se somando às obras de ficção.
As narrativas de “As mil e uma noites”, que sempre leu e releu, estavam entre as principais referências de sua obra literária, em meio a Cruz e Souza, Graciliano Ramos, Lima Barreto, Drummond, Fernando Pessoa, José Saramago, James Joyce, William Faulkner, Honoré Balzac, Juan Rulfo e Thomas Mann.

Entre seus trabalhos mais conhecidos estão:
“Medalha Anita Garibaldi”, concedida pelo governo de Santa Catarina (2001);
“Troféu Juca Pato”, de Intelectual do Ano, concedido pela União Brasileira de Escritores (UBE) e Folha de S.Paulo [2001];
Dois anos antes de sua morte, a biblioteca com cerca de dez mil títulos, que Salim reunira juntamente com Eglê, foi doada para a Universidade do Estado de Santa Catarina (UDESC). Hoje, esses livros estão disponíveis ao público no “Espaço Eglê Malheiros e Salim Miguel”, em Florianópolis, juntamente com um grande volume de revistas, documentos e objetos pessoais.
FICHA TÉCNICA:
Pesquisa, redação e edição de textos e imagens: Antônio Carlos Miguel, Veet Vivarta (João José Miguel), Sônia Malheiros Miguel e Paulo Sérgio Miguel.
Criação de arte e webdesign: Ati Miguel / Cedar Ridge